Tempos de Crise como Alerta da Necessidade de Pensar e Planear o Futuro
As cheias que afetam Portugal, com impactos profundos em infraestruturas, empresas e comunidades, não são acontecimentos isolados. Resultam, em muitos casos, de fenómenos atmosféricos persistentes, como os chamados comboios de tempestade — sistemas sucessivos de frentes meteorológicas que atingem as mesmas regiões durante vários dias, saturando solos, pressionando redes de drenagem e expondo fragilidades estruturais acumuladas ao longo do tempo.
O problema, mais do que meteorológico, é estratégico.
Eventos extremos estão a tornar-se mais frequentes e mais intensos. O que antes era exceção tende a aproximar-se da normalidade estatística. Quando isso acontece, a a necessidade passa a ser estrutural. Mais do que reagir a um evento, trata-se de avaliar se o modelo de planeamento, investimento e organização, preparando a comunidade para contextos de maior instabilidade.
Crises funcionam como testes de stress. Revelam dependências críticas, falhas de coordenação, ausência de redundâncias e insuficiências de planeamento. Mais do que criar vulnerabilidades, expõem-nas.
A pandemia de COVID-19 foi um desses momentos de exposição sistémica. Organizações de saúde, empresas e instituições públicas foram confrontadas com a necessidade urgente de decidir sob incerteza elevada. Algumas limitaram-se a reagir. Outras utilizaram a crise como oportunidade para clarificar missão, rever processos e estruturar decisões com base em análise estratégica.
Foi neste contexto que se desenvolveu uma análise estratégica a duas farmácias, uma rural e outra urbana, utilizando a metodologia SWOT como instrumento de diagnóstico e decisão. O exercício não teve como propósito apenas responder à crise pandémica. Teve como objetivo mais ambicioso exercitar o pensamento estratégico em ambiente adverso — exatamente o tipo de capacidade que se revela decisiva quando fenómenos extremos, como as atuais cheias e tempestades, desafiam a robustez das estruturas existentes.
Se as crises se tornam mais frequentes pensar e planear o futuro deixa de ser opção académica ou exercício teórico. Torna-se um requisito de sobrevivência.
É sob este enquadramento que se apresenta o estudo realizado, procurando demonstrar que a disciplina do pensamento estratégico, aplicada a organizações concretas em contexto de pandemia, oferece lições relevantes para qualquer sistema que pretenda resistir — e não apenas reagir — a cenários de crescente instabilidade.
Pensar o Futuro em Tempos de Crise: Análise Estratégica a Duas Farmácias em Contexto de Pandemia
Em plena crise provocada pela pandemia de COVID-19, quando a incerteza dominava os sistemas de saúde, as cadeias de abastecimento e o comportamento dos consumidores, foi desenvolvido um trabalho de análise estratégica a duas farmácias portuguesas: uma localizada em meio rural e outra em contexto urbano. O objetivo foi claro e exigente: exercitar o pensamento estratégico em ambiente de elevada turbulência, utilizando a metodologia SWOT como instrumento estruturante de reflexão e decisão.
O estudo deu origem a um artigo científico assinado por Catarina Paiva, Pedro Paiva e João Rui Pita, no qual se sistematizou o processo de diagnóstico estratégico, a definição de caminhos para que cada farmácia cumprisse a sua missão e a comparação entre as opções estratégicas adotadas em função do seu contexto específico.
Contexto: Crise, Incerteza e Necessidade de Clareza Estratégica
A pandemia da COVID-19 representou um choque sistémico. Para as farmácias comunitárias, significou simultaneamente: aumento da procura por determinados produtos (máscaras, desinfetantes, testes); ruturas frequentes nas cadeias de fornecimento; reconfiguração do fluxo de utentes; exposição acrescida ao risco sanitário; pressão emocional sobre as equipas.
Neste contexto, tornou-se imperativo pensar estrategicamente: clarificar prioridades, identificar vulnerabilidades, explorar oportunidades emergentes e alinhar decisões com a missão.
A Metodologia: Análise SWOT como Ferramenta de Pensamento Estratégico
A ferramenta escolhida foi a análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats), aplicada de forma rigorosa e participada pelas equipas de gestão.
A análise incidiu sobre quatro dimensões:
Forças – competências internas, reputação, localização, equipa, cultura organizacional;
Fraquezas – dependências críticas, limitações estruturais, fragilidades de processos;
Oportunidades – novas necessidades da comunidade, serviços diferenciadores, digitalização;
Ameaças – instabilidade regulatória, concorrência, incerteza epidemiológica, disrupções logísticas.
O exercício foi para além do diagnóstico descritivo. A análise foi orientada para a decisão estratégica, traduzindo-se em opções concretas para cada farmácia.
A Farmácia Rural: Proximidade como Vantagem Estratégica
Na farmácia situada em meio rural, a análise revelou como principal força a relação de proximidade com a comunidade. A farmácia desempenhava um papel social central, muitas vezes substituindo ou complementando serviços de saúde menos acessíveis.
Principais vetores estratégicos identificados:
- Reforço da função de apoio clínico e aconselhamento personalizado;
- Consolidação da confiança comunitária como ativo estratégico;
- Gestão criteriosa de stocks face à maior vulnerabilidade logística;
- Aposta na continuidade de cuidados e na presença ativa junto da população envelhecida.
O impacto da COVID-19 acentuou o papel da farmácia como infraestrutura essencial de proximidade. A estratégia centrou-se na estabilidade, resiliência e manutenção da confiança.
A Farmácia Urbana: Diferenciação e Complexidade Operacional
Na farmácia urbana, o contexto era distinto: maior concorrência, maior densidade populacional e maior exposição a variações abruptas de procura.
A análise SWOT evidenciou:
- Necessidade de gestão mais sofisticada de fluxos e processos;
- Oportunidade de diversificação de serviços;
- Maior pressão competitiva;
- Potencial para inovação organizacional e tecnológica.
Principais orientações estratégicas:
- Reorganização operacional para garantir segurança e eficiência;
- Integração de serviços diferenciadores;
- Exploração de canais digitais e novas formas de contacto com utentes;
- Reforço da proposta de valor em ambiente competitivo.
A pandemia funcionou como catalisador de transformação, acelerando decisões que, em contexto estável, poderiam ter sido adiadas.
Comparação Estratégica: Missão Comum, Caminhos Diferentes (Ver Infográfico)
Ambas as farmácias partilhavam uma missão comum: servir a comunidade com competência técnica, ética profissional e proximidade humana. Contudo, o contexto originou estratégias distintas.
O estudo demonstrou que a estratégia não é um modelo universal replicável. É uma construção que depende do contexto, recursos, posicionamento e ecossistema envolvente.
Liderança em Tempos de Crise
Este trabalho só foi possível graças a uma enorme disponibilidade e abertura da gestão de topo das duas farmácias envolvidas: Rui Baptista, Alda Baptista, Rosa Cerveira e João Pires. Em tempos de crise, a liderança revela-se não apenas na tomada de decisão, mas na capacidade de aprender e partilhar conhecimento.
Impacto Científico e Pedagógico
O artigo científico resultante constituiu um contributo relevante para a compreensão da gestão estratégica em farmácias comunitárias em contexto de crise sanitária.
Hoje, numa nova época marcada por instabilidade económica, geopolítica e social, este caso foi utilizado como exemplo pedagógico em programas de Pós-Graduação e permite aos alunos:
- Compreender o conceito de análise SWOT de forma aplicada;
- Perceber a diferença entre diagnóstico e decisão estratégica;
- Identificar como o contexto molda a estratégia;
- Reconhecer o papel da liderança em situações de incerteza.
Este projeto demonstrou que o pensamento estratégico não é um acessório reservado a tempos de estabilidade. É precisamente em momentos de crise que se torna mais necessário.
Conclusão
A pandemia de COVID-19 foi um teste à resiliência das organizações de saúde. O estudo mostrou que, mesmo sob pressão extrema, é possível parar, pensar e decidir estrategicamente.
A análise SWOT revelou-se não apenas uma ferramenta de diagnóstico, mas um instrumento de clarificação de identidade e de orientação para o futuro.
Num mundo onde a crise parece tornar-se condição permanente, a verdadeira vantagem competitiva pode residir menos nos recursos e mais na capacidade de pensar estrategicamente quando tudo à volta é incerteza.
Se as crises se tornam mais frequentes, e os incêndios, as cheias, as tempestades são mais frequentes e mais intensas, pensar e planear o futuro não pode ser opção académica ou exercício teórico. É um factor critico de sobrevivência.
Para ver o artigo original, podem ver o link: https://

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